sábado, 25 de fevereiro de 2012

Neblina – Um Rito de Transição


Serra de Maracajú, o "Vale do Rio Estreito"


Entre a cidade onde nasci, capital, e a cidade onde estudo, interior, existe um vale que separa os dois biomas desse lugar (Pantanal e Cerrado). Esse vale é formado por uma serra, que se elevam paredões de pedra. Essas paredes de pedra, eu imagino como uma muralha, que divide dois reinos (úmido e seco).

Ontem, vindo de minha terra natal para a cidade do Rio Estreito, ao chegar próximo da muralha que divide os dois reinos, havia uma grande neblina. Senti como um rito de transição. Ao sair da cidade natal, eu tinha me questionado sobre vários aspectos. Um deles foi o mecanismo que rege as pessoas. Todos temos horários, rotinas e vidas diferentes, que normalmente acontecem em centros (que criamos na mente), e é dito como dever manter essa ordem. Mas que ordem é essa que proibe alguém de observar a inspiração do amanhecer? Eu havia percebido que saindo do grande centro daquele lugar, e indo em direção do interior, poderia ser uma possibilidade de abrir a mente e olhar o que estava ao redor. Quando estamos no centro, esquecemos de prestar atenção do entorno. Deve ser por isso que a vida é um labirinto. 

Logo, na estrada, nos deparamos com aquela neblina. As grande rochas erguidas no meio do cerrado, sumiram. A muralha havia desaparecido. É como se eu pudesse entrar, sem passar pelo portão. Parecia a recepção de um bom herói. Os campos estavam brancos. Enormes fantasmas vagavam pelos campos, lagos e pantanos. As arvores em árduo mistério. Os animais em silêncio. Um druida, andando pela estrada, se assusta. Era uma manifestação divina!

A neblina se conectava com o chão. Deveriam ser as memórias daquele lugar, sendo sugadas para as altitudes da mente. O Sol silenciou. O druida teve coragem em atrevessar a neblina. Um sorriso no rosto, arrepio. Era um momento de transição. Não foi possível ver um vestígio da muralha que separa os dois reinos. O vale estava totalmente encantado com a bruma. Ao chegar em minha cidade interiorana, me senti bem vindo. Renovado. Era necessário renovar a casa também. O fiz. Até mesmo o cálice se quebrou. Os espíritos que vivem nesse local sempre me surpreendendo. O Rio Estreito me recebeu bem, a neblina se desfez. Um Sol forte retornou. Voltei.

Então, vamos a uma pequena meditação:

Sente-se confortavelmente e respire como bruma (calmamente).

Imagine-se andando em uma estrada, que divide dois reinos. Os dois reinos são inimigos, e construiram uma muralha para dividir suas posses. Existe uma estrada e um portão. Você está no reino seco e quer adentrar no reino úmido. Caminhe e observe a paisagem. Se depare com uma neblina. A neblina cobre todo o local, inclusive a muralha e o portão. Todos os guardiões estão iludidos, você pode passar pelo portão sem ser revistado. Os reinos não estão mais divididos. Então você deixa tudo o que lhe traz involução na estrada, e adentra a neblina. Também é iludido por ela, mas você tem a estrada para se orientar. Ao chegar na muralha, ninguém o vê, porque a bruma é densa. Você passa pelo portão e entra no reino úmido. A neblina se desfaz, e você está pleno, feliz e em paz. Uma grande voz de renovação flui dentro de você.

Respire calmamente. Abra os olhos e continue alimentando essa força.

Mais um rito de passagem realizado.

"Parta do centro e volte ao entorno."

/|\ Awen




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