segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

9º Dia Druídico


Diálogo entre o Velho Carvalho e o Druida do Vento.

* Havia um Velho Carvalho no caminho que andava o Druida do Vento. Para a surpresa do jovem, o Velho Carvalho falou.

Velho Carvalho: Ancestrais.

Druida do Vento: Quem fala?

Velho Carvalho: Aquele que detém os segredos do universo que tanto procuras.

Druida do Vento: Não acredito que estou conversando com um Carvalho.

Velho Carvalho: Não necessita acreditar, mas responda meu desafio e poderá continuar o caminho.

Druida do Vento: São tantos ancestrais que, em meu vão conhecimento, não poderia citar todos. Entretanto me esforçarei para lembrar.

Há três tipos de ancestralidades para um homem. Os que lá sacralizaram antes de mim. Os que experimentaram antes de mim e me conceberam. Os que aqui vivenciaram antes de mim. Três elementos devo meu respeito. Sangue, Terra e Espírito. O Sangue é o elemento água, a ancestralidade que flui e está ligada pelo sentimento. A Terra é o elemento terra, a ancestralidade que está abaixo de nossos pés. O Espírito são os elementos ar e fogo, a ancestralidade que alimenta o âmago com sabedoria, entendimento e compreensão.  Ancestralidade sanguínea, local e espiritual é o tripé a ser honrado por qualquer homem vivo neste mundo.

Os ancestrais sanguíneos são nosso passado de sangue. Conceder-lhes um espaço no altar, com fotos, objetos, oferenda é de valor por parte de um druida. Quando amamos, cuidamos. Até mesmo depois da morte. Muitas vezes, é um processo de desapego entre vivos e mortos. As lembranças ficam na mente, porque o sangue corre pelo corpo. Se essa ancestralidade é representada pela água, está intimamente ligada aos sentimentos profundos humanos, como o amor e o companheirismo. A família é formada de amor, somente, nada mais. Onde há esse sentimento, existe um núcleo propício a fluir como um rio. Honrar seus ancestrais sanguíneos é assumir suas experiências, boas ou ruins, como uma forma de sentir-se parte daquilo. Contudo não confunda sangue com pureza de linhagem. A nobreza está no que o elemento água proporciona: a ligação pelo amor.

Os ancestrais locais são nosso passado da casa. Podemos também lhe reservar espaços em nossas orações e altares. Oferendas e presentes são de bom grado. Podemos não os conhecer pelo amor, porém somos ligados pela Terra. Um elemento seguro e inabalável, onde vivemos e procuramos nossa paz. A terra possibilita a ligação pelo que somos formados, ou seja, dela mesma. Logo todos são meus irmãos e ancestrais, aqueles que construíram esse mundo antes de mim. Também devo aprender com as experiências, positivas ou não, que eles proporcionaram. Respeitar sua memória. Ter a responsabilidade de superá-los, como bons filhos da terra. Não se iluda, se o Planeta Terra é nosso local sagrado, então temos muitos ancestrais a comungar.
Os ancestrais espirituais são nosso passado de alma. O altar, as oferendas e toda a filosofia diária só existem porque eles trilharam antes de todos nós. Honrá-los também é muito importante. São o casamento entre os elementos ar e fogo. O ar é elemento da consciência e pensamento, leve e semeador. O fogo é o elemento da ação e batalha, o transformador. Ar e Fogo unidos tem o poder da transmutação, da alma. Logo, nossos ancestrais de animus são aqueles que cantaram a terra sagrada e nos passaram o conhecimento que temos hoje. Temos que aprender com os mesmos e superá-los. Esses ancestrais são sábios, não governadores de nossas vidas. Se quisermos nos tornar sábios, como eles o são, logo teremos que assumir nossa ignorância, e não a arrogância passada. Lembre-se que o Ar e o Fogo são como a metamorfose.

Velho Carvalho: A melhor resposta está na raiz. Não preste atenção somente em minha copa verdejante e alta, jovem druida! Agora me fale do tronco e da raiz.

Druida do Vento: Existe uma infinidade de ancestralidades a serem honradas. Além da ampla gama de homens que vieram a ser antes de todos nós, existem os seres que propiciaram a nossa chegada até aqui. Carvalhos como o senhor, árvores e plantas de todas as espécies que nos alimentaram, abrigaram, protegeram e curaram são também nossas ancestrais. Se nosso corpo reconhece as mesmas substâncias que elas, é porque somos irmãos e ancestrais. Todos os animais, por excelência, também são ancestrais do homem. Os que nadam, os que voam, os que rastejam, os pisam, exatamente todos são ligados a nosso reconhecimento do Planeta Terra como casa a ser compartilhada. Veja que estamos ligados pelos elementos sagrados também. Sangue e Seiva. Mesmo local. Alma. Todos são também nossos ancestrais e irmãos. Desde o mais simples organismo. Quem sabe sejamos nós os mais simples de todos. Afinal, somos tão frágeis e pequenos que necessitamos apontar nossas armas a tudo isso. Contra nossos próprios.

O mar (água e sangue), a terra (terra), e o céu (alma, ar e fogo) são nossos ancestrais. O Planeta Terra é nosso ancestral. A Lua e o Sol são nossos ancestrais. Todos os planetas existentes no Sistema Solar são nossos ancestrais. O Sistema Solar é nosso ancestral. Todos os Sistemas de estrelas pela Galáxia são nossos ancestrais. A Galáxia é nossa ancestral. Todas as Galáxias são nossas ancestrais. Todo o mecanismo do universo é nosso ancestral. O universo é nosso ancestral. Se ainda há outros, perdoem esse jovem druida que aqui, perante o carvalho, admite seu desconhecimento. Creio até que minha ignorância seja minha ancestral, porque sem ela, não nasceria a sabedoria. Sem todos esses processos, não haveria o parto cósmico da Consciência.

Ouvi dizer que em 5 bilhões de anos, as Galáxias irmãs Andrômeda e Via Láctea se colidiram, num grande evento cósmico do universo. Um grande novo parto cósmico. Neste momento devem estar acontecendo milhares dessas novas criações. Desde a simples divisão de uma célula em meu corpo, até o nascimento de uma estrela. Um dia nascendo em algum lugar, um planeta morrendo em outro. Um animal devorando outro, um sistema sendo engolido por um buraco negro. Tudo está em pleno acordo, para manter a diversidade única, o caos ordenado. Andrômeda e Via Láctea, num momento e espaço, irão se unir e criar algo novo, como um dia o universo gritou as respostas a uma pergunta. Estamos até hoje tentando responder, mas não existe verdade absoluta, porque a feiúra é ancestral da beleza. O sonho é ancestral da realidade. A morte é ancestral da vida.

São tantos ancestrais, que não há nexo algum em afirmar que sou descendente de magnos iluminados. Eu sou descendente de minha própria humanidade. O universo sou eu e eu sou o universo. Sou todas as medidas. Eu sou a maré, corrente que leva o mar a todos os lugares. Eu sou meu próprio ancestral e tudo que me antecede. Em algum tempo, serei Via Andrômeda Láctea, e quem sabe retornarei a substância de causa e efeito que possibilitou esses dizeres. A ancestral Brìgh, dentro de mim mesmo. A questão que teve muitas réplicas.

Velho Carvalho: Raiz, Tronco e Copa. Eis que tudo tem seu tempo. Veja o Templo, jovem druida. Agora pode passar por ele. 

Druida do Vento: Gratidão, Velho Carvalho.

/|\ Awen

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