Diálogo entre o Velho
Carvalho e o Druida do Vento.
* Havia um Velho
Carvalho no caminho que andava o Druida do Vento. Para a surpresa do jovem, o
Velho Carvalho falou.
Velho Carvalho: Ancestrais.
Druida do Vento: Quem fala?
Velho Carvalho: Aquele que detém os segredos do universo que tanto
procuras.
Druida do Vento: Não acredito que estou conversando com um
Carvalho.
Velho Carvalho: Não necessita acreditar, mas responda meu desafio e
poderá continuar o caminho.
Druida do Vento: São tantos ancestrais que, em meu vão
conhecimento, não poderia citar todos. Entretanto me esforçarei para lembrar.
Há três tipos de ancestralidades
para um homem. Os que lá sacralizaram antes de mim. Os que experimentaram antes
de mim e me conceberam. Os que aqui vivenciaram antes de mim. Três elementos
devo meu respeito. Sangue, Terra e Espírito. O Sangue é o elemento água, a
ancestralidade que flui e está ligada pelo sentimento. A Terra é o elemento
terra, a ancestralidade que está abaixo de nossos pés. O Espírito são os
elementos ar e fogo, a ancestralidade que alimenta o âmago com sabedoria,
entendimento e compreensão. Ancestralidade
sanguínea, local e espiritual é o tripé a ser honrado por qualquer homem vivo
neste mundo.
Os ancestrais sanguíneos são
nosso passado de sangue. Conceder-lhes um espaço no altar, com fotos, objetos,
oferenda é de valor por parte de um druida. Quando amamos, cuidamos. Até mesmo
depois da morte. Muitas vezes, é um processo de desapego entre vivos e mortos.
As lembranças ficam na mente, porque o sangue corre pelo corpo. Se essa
ancestralidade é representada pela água, está intimamente ligada aos
sentimentos profundos humanos, como o amor e o companheirismo. A família é
formada de amor, somente, nada mais. Onde há esse sentimento, existe um núcleo
propício a fluir como um rio. Honrar seus ancestrais sanguíneos é assumir suas
experiências, boas ou ruins, como uma forma de sentir-se parte daquilo. Contudo
não confunda sangue com pureza de linhagem. A nobreza está no que o elemento
água proporciona: a ligação pelo amor.
Os ancestrais locais são nosso
passado da casa. Podemos também lhe reservar espaços em nossas orações e
altares. Oferendas e presentes são de bom grado. Podemos não os conhecer pelo
amor, porém somos ligados pela Terra. Um elemento seguro e inabalável, onde
vivemos e procuramos nossa paz. A terra possibilita a ligação pelo que somos
formados, ou seja, dela mesma. Logo todos são meus irmãos e ancestrais, aqueles
que construíram esse mundo antes de mim. Também devo aprender com as
experiências, positivas ou não, que eles proporcionaram. Respeitar sua memória.
Ter a responsabilidade de superá-los, como bons filhos da terra. Não se iluda,
se o Planeta Terra é nosso local sagrado, então temos muitos ancestrais a
comungar.
Os ancestrais espirituais são
nosso passado de alma. O altar, as oferendas e toda a filosofia diária só
existem porque eles trilharam antes de todos nós. Honrá-los também é muito
importante. São o casamento entre os elementos ar e fogo. O ar é elemento da
consciência e pensamento, leve e semeador. O fogo é o elemento da ação e
batalha, o transformador. Ar e Fogo unidos tem o poder da transmutação, da
alma. Logo, nossos ancestrais de animus são aqueles que cantaram a terra
sagrada e nos passaram o conhecimento que temos hoje. Temos que aprender com os
mesmos e superá-los. Esses ancestrais são sábios, não governadores de nossas
vidas. Se quisermos nos tornar sábios, como eles o são, logo teremos que
assumir nossa ignorância, e não a arrogância passada. Lembre-se que o Ar e o
Fogo são como a metamorfose.
Velho Carvalho: A melhor resposta está na raiz. Não preste atenção
somente em minha copa verdejante e alta, jovem druida! Agora me fale do tronco
e da raiz.
Druida do Vento: Existe uma infinidade de ancestralidades a serem
honradas. Além da ampla gama de homens que vieram a ser antes de todos nós,
existem os seres que propiciaram a nossa chegada até aqui. Carvalhos como o
senhor, árvores e plantas de todas as espécies que nos alimentaram, abrigaram,
protegeram e curaram são também nossas ancestrais. Se nosso corpo reconhece as
mesmas substâncias que elas, é porque somos irmãos e ancestrais. Todos os
animais, por excelência, também são ancestrais do homem. Os que nadam, os que
voam, os que rastejam, os pisam, exatamente todos são ligados a nosso
reconhecimento do Planeta Terra como casa a ser compartilhada. Veja que estamos
ligados pelos elementos sagrados também. Sangue e Seiva. Mesmo local. Alma.
Todos são também nossos ancestrais e irmãos. Desde o mais simples organismo. Quem
sabe sejamos nós os mais simples de todos. Afinal, somos tão frágeis e pequenos
que necessitamos apontar nossas armas a tudo isso. Contra nossos próprios.
O mar (água e sangue), a terra
(terra), e o céu (alma, ar e fogo) são nossos ancestrais. O Planeta Terra é
nosso ancestral. A Lua e o Sol são nossos ancestrais. Todos os planetas existentes
no Sistema Solar são nossos ancestrais. O Sistema Solar é nosso ancestral.
Todos os Sistemas de estrelas pela Galáxia são nossos ancestrais. A Galáxia é
nossa ancestral. Todas as Galáxias são nossas ancestrais. Todo o mecanismo do
universo é nosso ancestral. O universo é nosso ancestral. Se ainda há outros,
perdoem esse jovem druida que aqui, perante o carvalho, admite seu
desconhecimento. Creio até que minha ignorância seja minha ancestral, porque
sem ela, não nasceria a sabedoria. Sem todos esses processos, não haveria o
parto cósmico da Consciência.
Ouvi dizer que em 5 bilhões de
anos, as Galáxias irmãs Andrômeda e Via Láctea se colidiram, num grande evento
cósmico do universo. Um grande novo parto cósmico. Neste momento devem estar
acontecendo milhares dessas novas criações. Desde a simples divisão de uma
célula em meu corpo, até o nascimento de uma estrela. Um dia nascendo em algum
lugar, um planeta morrendo em
outro. Um animal devorando outro, um sistema sendo engolido
por um buraco negro. Tudo está em pleno acordo, para manter a diversidade
única, o caos ordenado. Andrômeda e Via Láctea, num momento e espaço, irão se
unir e criar algo novo, como um dia o universo gritou as respostas a uma
pergunta. Estamos até hoje tentando responder, mas não existe verdade absoluta,
porque a feiúra é ancestral da beleza. O sonho é ancestral da realidade. A
morte é ancestral da vida.
São tantos ancestrais, que não há
nexo algum em afirmar que sou descendente de magnos iluminados. Eu sou
descendente de minha própria humanidade. O universo sou eu e eu sou o universo.
Sou todas as medidas. Eu sou a maré, corrente que leva o mar a todos os
lugares. Eu sou meu próprio ancestral e tudo que me antecede. Em algum tempo,
serei Via Andrômeda Láctea, e quem sabe retornarei a substância de causa e
efeito que possibilitou esses dizeres. A ancestral Brìgh, dentro de mim mesmo.
A questão que teve muitas réplicas.
Velho Carvalho: Raiz, Tronco e Copa. Eis que tudo tem seu tempo.
Veja o Templo, jovem druida. Agora pode passar por ele.
Druida do Vento: Gratidão, Velho Carvalho.
/|\ Awen
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