sábado, 7 de janeiro de 2012

1º Dia Druídico



Diálogo entre o Druida da Essência e o Druida do Vento.

Druida da Essência: Porque Druidismo?

Druida do Vento: Uma ilusão por trás das sombras de uma criança. Era isso. Vultos e Almas do atemporal, renascidas num tempo estranho sem passado, presente e nem futuro. Um sonho suspirado, que desejava ser alimentado. Uma criança menino, brincava sozinho de nada. Sozinha e em silêncio, a semente brota da terra. Nada além de sua infância, suas sombras investigavam um âmago maior. Um lençol era sua túnica imponente e mágica. O cabo de vassoura era um cajado poderoso e antigo. Um chapéu de papel era sua guirlanda, sem ao menos saber o que era uma dessas coisas feitas de planta. Apossava-se de instrumentos da cozinha, acreditava que tinham poderes além do real. Escondia seu “conhecimento precioso” em locais secretos, que sentia que somente ele podia saber.

Um dia, com seu chocalho, feito com grãos de feijão e uma garrafinha plástica, nada mais moderno para seu mundo reciclável, decidiu o menino chamar o raio. Mexia incessantemente aquele objeto profano, enquanto uma ventania era presente. Num transe, rodopiando, serelepe, ele tinha o poder. A tempestade torrencial se apresentava com toda a sua majestade. Entretanto os espíritos continuavam a se enfrentar. De um lado um menino e de outro a chuva. Uma voz estrondosa desceu dos céus, no formato de uma coluna iluminada, tremendo o chão, iluminando tudo e rasgando os ouvidos de quem lhe pretendia atingir. Ela dizia sem dúvida, “Me invocastes?”. Imediatamente, um frio vital da cabeça aos pés, fez a mão do menino reagir. O chocalho foi derrubado. Se espatifou no chão, cada semente de feijão, tudo se quebrou. Correu, o menino correu. O trovão deu risada.

Um sonho teatral infantil havia por trás daqueles lençóis e poder. Ele queria dominar o vento. Seu mestre supremo era o vento, o ar em movimento, a tempestade, o sopro, até que ele descobriu a inspiração. Esta ele não podia dominar, porém compartilhar. O vento ainda era o seu poder oculto. Fingia que controlava-o, erguendo a mão sob as ventanias. Acreditava mesmo que as folhas que se movimentavam ao seu redor, era o seu poder. Brincava num bom redemoinho, porque o vento o envolvia como o lençol um dia o fez. Estava inspirado. Por enquanto não sabia. Em si, gostava mesmo do lençol, porque no vento ele fazia uma dança esplendorosa, como se ele fosse o mais belo, fino e branco tecido de toda a Terra. Como se o vento fosse o amante do algodão. E ele o era. Abraçado pelo amor entre o vento e o tecido, se sentia protegido por alguma força inexplicável. Não era paterna, não era materna, não era humana, não era animal, não era vegetal, nem ao menos uma energia provinda de qualquer parte do universo. Ela era o todo em si.

Entretanto, não existia luz. A criança cresceu, mas sua semente ainda não havia tido oportunidade. Era noite, frio e deserto. As sombras saíram para passear. O lençol estava lá. O cabo de vassoura também. E, se não me é falha a memória, alguns instrumentos feitos de nada. O que importava, era eu. Eu estava lá, existia e tinha chances de sobreviver a noite, ao frio e ao deserto. O jovem deixou que a luz mostrasse sua penumbra multifacetada. Ninguém mais retém a água da nascente, depois que o rio nasce. Não mesmo. O sombrio necessitou pela primeira assumir sua luz. Em mistério, toda a noite, na mesma parede, o jovem congelava sua imagem nevoeiro e se dizia mais forte.

Druida descobriu. Celta, redescobriu. Velho juntou ao novo. Os ícones de seu altar já não eram os mesmos. A virgem, de branco, a donzela esplêndida, a linda Fátima, envolta de uma delicadeza indiscreta, com seus olhos de acolhimento, puseram a fortaleza do Deus Rei, abaixo, com um só olhar. A vela já não era a de antes. Uma fumaça estranha purificava o local. Galhos e folhas já estavam espalhados, diante a santa. Orações inversas, de um altar herege. Os mandamentos já não faziam sentido. A imagem imaculada, já não completava, apenas mostrava outro rosto. Não era Fátima, era outra donzela magnânima e gentil ali. O livro do Deus Rei foi fechado. Os antigos símbolos e rituais, vetados. As sombras trataram de consumir. As preces a natureza, ignoradas foram pelos pais santos. Porque os pais santos ignoraram a Mãe? Porque lavei minhas mãos, traindo meu senhor? Crucificai-o! Crucifica-me!

Se os pais santos não podem escutar a Mãe, então o Pai está fadado ao declínio de sua casa. Eu te escuto Mãe, ensangüentada dos meus sonhos. Sua veste branca foi violada. O senhor de preto me avisou. Fátima, eu te entrego a quem lhe deve culto, que não o sou. Enterro meu altar, traio minha assembléia, veto o meu voto de aceitar pecados. Não crucifico-me, porque liberto-me. Estou pronto, Donzela de Branco, de muitas corujas. Estou pronto, senhor de preto, seja quem for. E assim foi, o jovem o fez. Druida se descobriu. Druida renasceu. Druida germinou. Sim, ele podia afirmar com todas as palavras do mundo: “Sou o Druida do Vento”.

A primavera o recebeu com toda a sua beleza. Mesmo rejeitado, todos já sabiam que um dia o ovo iria eclodir. A cobra tinha nascido. A coruja havia retornado nas noites, a ser escutada. O jovem não quer lembrar do seu passado de rejeito. Morre aqui! A cabeça desse inimigo amargo eu devolvo aos deuses! Ele conseguiu finalmente ser um pouquinho de quem era na verdade. Entretanto tanto retraimento, fez lhe transpor sua utopia infantil e singela, em ilusão para uma mente a ser alimentada com seus pensamentos fanáticos contra si mesmo. Ser druida pode fazer mal para si. Curar a si mesmo não é tão fácil. É necessária uma doença que apele a todos os níveis, para que o corpo a rejeite plenamente. O jovem druida estava doente. Enfermo de sentir-se um ser menos completo em si mesmo.

Dor. A verdade foi colocada em sua frente. Nenhum deus podia o curar. Não havia cura. Não era uma doença. Contudo, um sacrifício para o bem do si mesmo. Em algum momento, uma voz disse: “Não poderá por tanto tempo ser a veste druida. Um dia terá que ser o Druida do Vento”. A veste, o linho, o tecido somente são soprados pelo vento. Para aceitar o vento, é necessário despir.

O senhor de preto lhe veio em uma noite, com sua imponência magnífica. Bateu o cajado no chão e disse: “Não importa se não há ingredientes certos em sua posse, este é o teu caminho”. Ali tudo mudou. O druidismo era mesmo o caminho. O sangue antigo havia sido retomado. Mas o jovem druida queria mais, sempre mais. É um desejo ansioso que ele alimenta, inesgotável! Ele quer, porque quer. Chora dizendo que vai conseguir, mesmo que pareça impossível. E não hesita em se impor e enfrentar com mais fúria qualquer raio que se ponha contra ele. Não é mais a mesma criança. Afinal, vento pode ser brisa, como também tornado.

Rito por rito, prometendo aos mil deuses, ele um dia iria ser um sábio. Ninguém o impediria, nunca. Quase já não se importava mais com os olhos de julgamento dos seus semelhantes. Iguais que o tratavam como diferente. Mas ele era diferente! Essa era sua essência, desafiadora. Incomodava, porque quem tocava, fazia sumir. Tudo que escrevia, vinha de algo que não sabia explicar. Seus professores da vida diziam que ele tinha “o coração nos olhos”. Suas palavras eram tão fortes, que impactavam. Se perguntavam os outros, “como ele pode? Como se atreve?”. Subjetivamente sempre.

Amadureceu, mas permanece jovem demais. Propôs a si mesmo uma filosofia, resumida em três palavras, numa frase subliminar: “Caminho, Jornada, Destino”. O druidismo, como caminho, já havia sido confirmado. A jornada tem seu início agora. O reencontro de almas, um destino possível e esperado com sacrificial paciência, dia após dia, noite após noite. Um dia, o que prometera rito após rito, será concreto. Tudo no seu devido momento, acompanhando o movimento do ar.

Druida da Essência: Mas por que Druidismo?

Druida do Vento: Indefinida questão. Pergunto-me o porquê de estar aqui nesse mundo, muitas vezes, para as mesmas paredes, silenciosas, que tem paciência para me ouvir. “Porque Druidismo?” não é uma pergunta, é a verdadeira resposta. Enquanto eu questiono, vou vivenciando eu mesmo, o Universo, a Terra, a Vida, o Homem, a Consciência, a Criação Divina. Experimentar é o propósito da vida de um Druida. Deixa o vento me levar, como traz as sementes. 

/|\ Awen

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