Diálogo entre o
Druida da Essência e o Druida do Vento.
Druida da Essência:
Porque Druidismo?
Druida do Vento: Uma ilusão por trás das sombras de uma criança.
Era isso. Vultos e Almas do atemporal, renascidas num tempo estranho sem
passado, presente e nem futuro. Um sonho suspirado, que desejava ser
alimentado. Uma criança menino, brincava sozinho de nada. Sozinha e em
silêncio, a semente brota da terra. Nada além de sua infância, suas sombras
investigavam um âmago maior. Um lençol era sua túnica imponente e mágica. O
cabo de vassoura era um cajado poderoso e antigo. Um chapéu de papel era sua
guirlanda, sem ao menos saber o que era uma dessas coisas feitas de planta.
Apossava-se de instrumentos da cozinha, acreditava que tinham poderes além do
real. Escondia seu “conhecimento precioso” em locais secretos, que sentia que
somente ele podia saber.
Um dia, com seu chocalho, feito
com grãos de feijão e uma garrafinha plástica, nada mais moderno para seu mundo
reciclável, decidiu o menino chamar o raio. Mexia incessantemente aquele objeto
profano, enquanto uma ventania era presente. Num transe, rodopiando, serelepe, ele
tinha o poder. A tempestade torrencial se apresentava com toda a sua majestade.
Entretanto os espíritos continuavam a se enfrentar. De um lado um menino e de
outro a chuva. Uma voz estrondosa desceu dos céus, no formato de uma coluna
iluminada, tremendo o chão, iluminando tudo e rasgando os ouvidos de quem lhe
pretendia atingir. Ela dizia sem dúvida, “Me invocastes?”. Imediatamente, um
frio vital da cabeça aos pés, fez a mão do menino reagir. O chocalho foi
derrubado. Se espatifou no chão, cada semente de feijão, tudo se quebrou.
Correu, o menino correu. O trovão deu risada.
Um sonho teatral infantil havia
por trás daqueles lençóis e poder. Ele queria dominar o vento. Seu mestre
supremo era o vento, o ar em movimento, a tempestade, o sopro, até que ele
descobriu a inspiração. Esta ele não podia dominar, porém compartilhar. O vento
ainda era o seu poder oculto. Fingia que controlava-o, erguendo a mão sob as
ventanias. Acreditava mesmo que as folhas que se movimentavam ao seu redor, era
o seu poder. Brincava num bom redemoinho, porque o vento o envolvia como o
lençol um dia o fez. Estava inspirado. Por enquanto não sabia. Em si, gostava
mesmo do lençol, porque no vento ele fazia uma dança esplendorosa, como se ele
fosse o mais belo, fino e branco tecido de toda a Terra. Como se o vento fosse
o amante do algodão. E ele o era. Abraçado pelo amor entre o vento e o tecido,
se sentia protegido por alguma força inexplicável. Não era paterna, não era
materna, não era humana, não era animal, não era vegetal, nem ao menos uma
energia provinda de qualquer parte do universo. Ela era o todo em si.
Entretanto, não existia luz. A
criança cresceu, mas sua semente ainda não havia tido oportunidade. Era noite,
frio e deserto. As sombras saíram para passear. O lençol estava lá. O cabo de
vassoura também. E, se não me é falha a memória, alguns instrumentos feitos de
nada. O que importava, era eu. Eu estava lá, existia e tinha chances de
sobreviver a noite, ao frio e ao deserto. O jovem deixou que a luz mostrasse
sua penumbra multifacetada. Ninguém mais retém a água da nascente, depois que o
rio nasce. Não mesmo. O sombrio necessitou pela primeira assumir sua luz. Em
mistério, toda a noite, na mesma parede, o jovem congelava sua imagem nevoeiro
e se dizia mais forte.
Druida descobriu. Celta,
redescobriu. Velho juntou ao novo. Os ícones de seu altar já não eram os
mesmos. A virgem, de branco, a donzela esplêndida, a linda Fátima, envolta de
uma delicadeza indiscreta, com seus olhos de acolhimento, puseram a fortaleza
do Deus Rei, abaixo, com um só olhar. A vela já não era a de antes. Uma fumaça
estranha purificava o local. Galhos e folhas já estavam espalhados, diante a
santa. Orações inversas, de um altar herege. Os mandamentos já não faziam
sentido. A imagem imaculada, já não completava, apenas mostrava outro rosto.
Não era Fátima, era outra donzela magnânima e gentil ali. O livro do Deus Rei
foi fechado. Os antigos símbolos e rituais, vetados. As sombras trataram de
consumir. As preces a natureza, ignoradas foram pelos pais santos. Porque os
pais santos ignoraram a Mãe? Porque lavei minhas mãos, traindo meu senhor?
Crucificai-o! Crucifica-me!
Se os pais santos não podem
escutar a Mãe, então o Pai está fadado ao declínio de sua casa. Eu te escuto
Mãe, ensangüentada dos meus sonhos. Sua veste branca foi violada. O senhor de
preto me avisou. Fátima, eu te entrego a quem lhe deve culto, que não o sou.
Enterro meu altar, traio minha assembléia, veto o meu voto de aceitar pecados.
Não crucifico-me, porque liberto-me. Estou pronto, Donzela de Branco, de muitas
corujas. Estou pronto, senhor de preto, seja quem for. E assim foi, o jovem o
fez. Druida se descobriu. Druida renasceu. Druida germinou. Sim, ele podia
afirmar com todas as palavras do mundo: “Sou o Druida do Vento”.
A primavera o recebeu com toda a
sua beleza. Mesmo rejeitado, todos já sabiam que um dia o ovo iria eclodir. A
cobra tinha nascido. A coruja havia retornado nas noites, a ser escutada. O
jovem não quer lembrar do seu passado de rejeito. Morre aqui! A cabeça desse
inimigo amargo eu devolvo aos deuses! Ele conseguiu finalmente ser um pouquinho
de quem era na verdade. Entretanto tanto retraimento, fez lhe transpor sua
utopia infantil e singela, em ilusão para uma mente a ser alimentada com seus
pensamentos fanáticos contra si mesmo. Ser druida pode fazer mal para si. Curar
a si mesmo não é tão fácil. É necessária uma doença que apele a todos os
níveis, para que o corpo a rejeite plenamente. O jovem druida estava doente. Enfermo
de sentir-se um ser menos completo em si mesmo.
Dor. A verdade foi colocada em
sua frente. Nenhum deus podia o curar. Não havia cura. Não era uma doença.
Contudo, um sacrifício para o bem do si mesmo. Em algum momento, uma voz disse:
“Não poderá por tanto tempo ser a veste druida. Um dia terá que ser o Druida do
Vento”. A veste, o linho, o tecido somente são soprados pelo vento. Para
aceitar o vento, é necessário despir.
O senhor de preto lhe veio em uma
noite, com sua imponência magnífica. Bateu o cajado no chão e disse: “Não
importa se não há ingredientes certos em sua posse, este é o teu caminho”. Ali
tudo mudou. O druidismo era mesmo o caminho. O sangue antigo havia sido
retomado. Mas o jovem druida queria mais, sempre mais. É um desejo ansioso que
ele alimenta, inesgotável! Ele quer, porque quer. Chora dizendo que vai
conseguir, mesmo que pareça impossível. E não hesita em se impor e enfrentar com
mais fúria qualquer raio que se ponha contra ele. Não é mais a mesma criança. Afinal,
vento pode ser brisa, como também tornado.
Rito por rito, prometendo aos mil
deuses, ele um dia iria ser um sábio. Ninguém o impediria, nunca. Quase já não
se importava mais com os olhos de julgamento dos seus semelhantes. Iguais que o
tratavam como diferente. Mas ele era diferente! Essa era sua essência,
desafiadora. Incomodava, porque quem tocava, fazia sumir. Tudo que escrevia,
vinha de algo que não sabia explicar. Seus professores da vida diziam que ele
tinha “o coração nos olhos”. Suas palavras eram tão fortes, que impactavam. Se
perguntavam os outros, “como ele pode? Como se atreve?”. Subjetivamente sempre.
Amadureceu, mas permanece jovem
demais. Propôs a si mesmo uma filosofia, resumida em três palavras, numa frase
subliminar: “Caminho, Jornada, Destino”. O druidismo, como caminho, já havia
sido confirmado. A jornada tem seu início agora. O reencontro de almas, um
destino possível e esperado com sacrificial paciência, dia após dia, noite após
noite. Um dia, o que prometera rito após rito, será concreto. Tudo no seu
devido momento, acompanhando o movimento do ar.
Druida da Essência: Mas por que Druidismo?
Druida do Vento: Indefinida questão. Pergunto-me o porquê de estar
aqui nesse mundo, muitas vezes, para as mesmas paredes, silenciosas, que tem
paciência para me ouvir. “Porque Druidismo?” não é uma pergunta, é a verdadeira
resposta. Enquanto eu questiono, vou vivenciando eu mesmo, o Universo, a Terra,
a Vida, o Homem, a Consciência, a Criação Divina. Experimentar é o propósito da
vida de um Druida. Deixa o vento me levar, como traz as sementes.
/|\ Awen
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