terça-feira, 1 de novembro de 2011
A Espada que atravessa, o Sangue que derrama e o Grito que ecoa
O maior prazer de todos os tempos é a dor. A dor do parto, a dor do choro, a dor da chegada, a dor da partida, a dor da luta, ... A dor é o sinal mais nobre e perfeito de que estamos vivos. Entre a lágrima e o riso há poucas diferenças, pois quando o bebê chora ao nascer, a mãe sorri e derrama seus olhos em alegria. A morte e a vida são os mesmos agentes na dor do amor. Pode trazer incômodo e sofrimento. Justamente a doença que traz a cura. A luz e a escuridão se confundem em um nó eterno, assim como a dor e o prazer. A fronteira somente está viva, porque a dor não foi superada. É preciso escutar a dor do parto e do filho que perde a mãe. É necessário lacerar para surgir cicatriz.
Na batalha, sinta a dor te atravessar, e mais importante que isso, atravesse os mundos. Existem muitas marcas no corpo do guerreiro, as feridas são invitáveis. A dor é a guerra e a paz depende dela. A dor não consome, ela é a presença da voz pedindo socorro. Ela é divina. Emma Restall Orr nos diz: “O nascimento é ainda mais doloroso que a morte”. É muito difícil a aceitação do destino, pois ele dói. Para um espírito em processo de retorno é um sacrifício. Muita coragem, mais do que todos nós juntos. Na segunda passagem, a mesma alma terá que reunir suas forças para ir. Nos falam que é tão rápido. Sim a última dor é ligeira, mas ela representa uma nova jornada, a chega em novo velho mundo desconhecido. Uma dança eterna de corpo e alma, inspirada pela dor.
A dor é uma música que emana pelo universo. A muito tempo houve um grito inicial, o escuro e o claro se beijaram. A matéria e o éter se fundiram, num casamento sagrado, o gemido foi escutado por todo espaço da criação. Da dor surgiu a vida. Ela é o prazer, o prelúdio, a própria vida. Quando o suspiro do velho é feito, um pai ergue seu filho ainda cheio de sangue materno e diz: “Este é o sangue da nova aliança”. Não obstante, ninguém entendeu que sangue e dor são sinônimos e que as alianças são frutos destes sacrifícios. A dor é um sonho que se esgotou em mérito da realidade. O druida apela por paz, com uma espada apontada para as direções, porque ele lembra da dor da guerra para aclamar a paz. O sangue jorrado no ciclo fertiliza a terra.
Quando sorrimos uma dor nos sobe do ventre a boca. Quando choramos, uma dor provém do tórax e sobe até nossos olhos. Quando equilibramos riso e choro, uma dor desce da cabeça por todo o corpo. Somos arvores: se raiz é cortada, morremos; se o tronco é cortado, ainda podemos sobreviver; se a copa é podada, renovamos.
A dor citada tantas vezes nesse texto irá gerir muitas dores, mas lembre-se do parto, pois ele dirá tudo, de que não se quer falar. No inicio está plantado o meio e o fim. Diria eu, recomeço. A dor nos faz vivos.
/|\ Awen
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