Depois de algum tempo, estou me sentindo um forasteiro. Às
vezes acho que sou um druida forasteiro nesse mundo pagão... Ou são os olhos
errados? Eu não sei, mas me sinto condenado aos olhares de desconfiança. A
confusão tomou meu ser. Alguns dizem que pareço um santo, que não sou pagão.
Outros dizem que sou estranho, que não sou pagão. Mais alguns dizem que não é
assim, que não sou pagão. Está bem, eu concordo, fui batizado duas vezes no
antigo templo, mas eu não gosto de ser forasteiro. Um druida forasteiro, ainda,
parece um tanto insano. O druida deveria conhecer cada árvore da mata, mas eu pergunto:
“Que árvore é aquela?”. Se eu pudesse ter tido algum mestre, algum
acompanhamento, quem sabe tivesse sido moldado melhor. Entretanto, não, eu
fiquei ao relento, não tive se quer um professor. Eu sou druida sozinho, não é
fácil ser druida junto. E o que dizer de quando os outros druidas estão todos
longes de você? Fico quieto. Eu não sei explicar e não sei se sei praticar. Tantas velas acesas, mas eu não vejo nenhum
significado. O incenso queima, mas eu não entendo a fumaça. A coruja voando,
mas eu não entendo os seus sinais. Somente inspiração. Esse círculo quadrado que construo, porque não
há circulo, há um estranho na mata. Será que a floresta me aceita?
Cansei de ser o druida forasteiro, cansei de ser sozinho,
cansei de ser junto, cansei desses olhares de julgamentos. Mas eu não sei o que
fazer. A chuva estraga as minhas idéias, e desmancha o sólido que havia em mim. Porque tinha que
ser justamente aqui? Porque tinha que justamente eu? Porque dizem que me
conhecem, mas me irritam tanto? Ao adentrar nesse bosque de muitos, não sei, as
energias ficaram abaladas. O druida se tornou forasteiro ao bosque. Como pode
ser possível? Ouvir os desaforos e sair em silêncio não é fácil. O druida
escutar que não é druida, não é druídico. Serei feliz? Mas as vozes insistem em
dizer: “Este é teu caminho!”. Porque aqui, onde nenhum bosque abriga carvalhos
e nem sábios? Ou o bosque expulsou o druida, ou o druida entrou no bosque
errado. Ou então, nunca houve druida.
Não só forasteiro, mas aventureiro corajoso. O que ele faz,
nem mesmo ele sabe o que faz. Um riso num mundo de dementes. O seu riso o
bosque reconhece, mas e o seu ser? Somente quando tiver uma barba até a cintura?
Mas ele conquistou algo que acreditava nunca encontrar, que foi o fim da
fronteira entre reinos. Mesmo assim, o druida é estrangeiro. Os olhares,
encaram o meu ser. “Quem é você?” é o que os outros perguntam. Eu só tenho a
dizer que não uso batina, àquela uma bruxa, e que ela está muito enganada que
druida são fictícios, eles não vieram de filmes. Não tentem quebrar as minhas
energias, retribuirei com meu riso, um riso modesto contra a ação da
hipocrisia. O granizo da chuva quebrou as telhas da minha casa e me deixou sem
abrigo. Eu vou soprar essas nuvens e esse bosque verá o poder desse druida
forasteiro. Porque Brìgh vive em mim, nasceu comigo e morrerá quando a terra
consumir esse corpo.
Druida Forasteiro é um andarilho, um forasteiro, que um dia
ouviu que aquele era o seu caminho e caminhando ele está até hoje, a procura de
algo que deseja: abrir a sua Botelha de Diamante, desatar os seus Nós Eternos, encontrar
a Folha que Perdura, a resposta do Ogham, enxugar a Garoa dos Olhos, ir
novamente Aquela Janela, fazer Até a Sentença Terminar, sumir com a Maldita Distância, quebrar O
Espelho, vestir A Túnica, Voltar ao Percurso, Ser a Contradição, Acreditar que
as Árvores Ventavam, despertar de um Profundo Sono, enfrentar o Ditador de
Identidades, fazer o Pôr do Sol, sentir a Estranha sensação de Presença, ser a
Juventude Imortal, soprar a Neblina de Mim Mesmo, transpor o Paradoxo da
Montanha Intransponível, ficar Entre Mundos Sagrados, invocar o Trovão Interno,
entender o Espírito Solitário, Dialogar com o Cavalo antes da Batalha, cortar
pela raiz a Erva da Ilusão, compreender a Não-Lua Cheia, trazer a paz para Os
Reinos em Guerra, beber um pouco da Lágrima e do Orvalho, ser Pequeno e
Grandioso, Desvendando novos Bosques, para sempre Druida do Vento, Germinando,
Crescendo, Frutificando.
/|\ Awen

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