quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A Túnica



Na mente permeia aquela imagem, do tecido de linho branco, leve e belo a esvoaçar no vento, definindo a forma humana do corpo e a expressão da alma sábia e poderosa por trás da imaginação. É tão mágico e rememorável vestir-se com daquele formato, com a túnica dos tempos antigos, essência expressa de mim num tempo fora do meu, mas incrustado em minha alma. Dá uma presença de passado, mas uma falsa sensação de segurança para quem usa equivocadamente. Mas porque usei erroneamente aquilo que tanto dediquei e amei? Tudo para esconder meu verdadeiro corpo, mente e alma daqueles que viam um símbolo. Entretanto quem vê agora é o mesmo que vestiu. Túnica, talma que esconde minha alma, é tão triste ter que rasgar fios tão nobres, mas terei que fazer.

Antes de mais nada, o druida é um ser humano. Mas iludi-me com a visão, com o símbolo e fiz todos se iludirem a minha volta. Um tolo, jogado aos cantos, visto com maus olhos pelos outros. Apontando as sentenças, juízes vulgos fazem o tribunal e não posso fugir. Preso aos meus sentimentos, ainda não druida em nome, cura no templo dos juízes foi pedida e negada. Afastamento, recolhimento, inverno, frio que queima a fértil terra. Negam a cura, porque não há e nem existirá. Então, vi todos aqueles mortos pelas mãos dos mesmo magistrados e me afastei deles. Se dividiram de mim, então só tenho uma palavra: Adeus! Algum pranto falso foi espargido, contudo em liberdade, não olhei para minhas costas. Livre deles, o druida podia se manifestar.

Um druida nascia, porém semente nova tem seus perigos. Os juízes, fora do tribunal, ainda existiam. Não havia remédio, eu já sabia, não obstante havia cura, de mim mesmo. A semente foi pisada e druida não teve paciência. Um pouco bruxo, estranhamente a fogueira teve que ceder. Então santo foi deixado para sempre e os demônios deles foram aceitos, mas na forma original: os antigos deuses. Chifres e mulheres, naturalidade, vida e morte, polaridade, ciclo, multiplicidade, a negação se transformou afirmação. Nada de compreensão, nem tolerância. A lágrima regou o novo solo e o druida, mesmo naquele lugar infértil e cheio de pedregulhos brotou. Determinado, ele quer fazer do lugar lindo e verde.

Vestiu a túnica, em equivoco. Assim pode disfarçar o verdadeiro druida por trás do druida fictício. Já era estranho, incompreendido e jogado aos cantos, fez do capuz a melhor arma. Não havia aceitado, curado, iluminado a si mesmo. Pior, não havia conhecido e reconhecido a ele mesmo. Guardou o seu âmago dentro de um véu tão frágil. Como pude? Tudo pelos julgo dos magistrados, fui infiel ao meu propósito, a minha liberdade, traí meu poder de quebrar o réu?

O corpo e o tecido se acostumaram. Eles, lá fora também crêem que sou essa imagem refletida no agora. Assuma a si, druida, que vive em outros tempos e que a túnica não é mais aceita em grandes magistrados do bosque, por chefes e poderosos, nem pelo camponês comum. Nem mesmo há magistrados, chefes e camponeses. O passado consumiu todo o vestígio do linho antigo e a linha que o druida teceu deve ser seccionada. O druida haveria de se despir do véu que lhe criou esse símbolo aos olhos dos homens.

O druida é um homem comum, sente e vive. A túnica não pode esconder o âmago, ela é só para vestir em rituais. Não pode se deixar levar pelo que a túnica dos tempos que não são mais de ninguém, vedem a visão atenta do bosque. Druida revestido de neblina, deixe o sopro levar essa bruma. Presencio esse sentimento sufocante porque provei minha própria contradição e estou prestes a me libertar por completo. É momento de despertar, de mudar.

Símbolos infelizes, homem infeliz! Homem, és um humano, não importa o nome que te denominaram, a teia que te envolve, o gesto que lhe faz criativo, a vontade de amar, de crer ou esperar. Larga do símbolo, do herói, do santo, do demônio, da túnica que te envolveu. Estas seguro dentro de seus domínios e reinos, rei, mas estas infeliz e mórbido, como queres buscar o que te completa assim, encapuzado e oculto? Prova do significado que criou e aderiu, reverte, regenera e refaça. Poucos conhecem o passado de um homem, porém querem conhecer. Pouco importa se conhecem ou se querem conhecer, mas é imprescindível que o homem conheça aquele que reside a si mesmo e leve como natural  para si, ame a si e respeite a si. Só assim obterá a compreensão dos Deuses e do Universo. Só assim, carvalho cederá suas sabedorias ao druida.

Cura a ti mesmo druida e estará curando a comunidade e a terra, essa é a verdade, natureza e amor de todos os tempos, nu perante os olhos que observam com inocência e voracidade.

"Cura a ti mesmo, druida, e obterá a compreensão dos segredos do Carvalho"
/|\ Awen

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