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| "A rainha Boudicca e Morrighan", Jonhson Howard David |
Antes havia um artesão que forjava a espada da batalha, mas ele construiu um martelo em cruz e subjugou todos que estavam a sua volta, se tornando único. Havia uma mulher reverenciada pela sua beleza, delicadeza e fertilidade, então vieram homens e a violaram. Um grande feiticeiro que morava na floresta teve seus dias contados, porque outros vieram e confundiram seus dizeres pela região e logo, o feiticeiro foi julgado e morto. Existia uma mulher que tinha a habilidade de curar com ervas e em um dia ensolarado, homens vieram e viram a mesma fazendo uma cruz de palha e numa pequena oração a santificaram. Um guerreiro herói morreu em glória na batalha, porém suas estórias foram esquecidas por serem profanas. Uma velha senhora morava e tecia em uma caverna e em uma noite de lua minguante, a velha tecelã teve suas agulhas arrancadas da mão, e morreu em pranto.
Foi assim que os homens confundiram poder com habilidade e/ou capacidade. O tempo deteriorou a arte e a ignorância consumiu o pensamento. Deuses se tornaram intocáveis. Quem são os Deuses?
Os Deuses não são deuses. Podemos até chamá-los de “deuses”, mas não empreguemos a visão antiga empregada a palavra “Deus”. Quando pensamos em “Deus” estamos fadados ao medo, temor e servidão. Esqueça a imagem clássica do “Deus”, um ser superior, intocável, sentado em um trono, que cega só de você olhar, que tem tanto poder que te dá medo, velhinho caquético, juiz supremo de todos os tempos e lugares e outras coisas mais humilhantes, colocando a humanidade, os animais, as árvores e qualquer outro ser como o mais simplório e tolo.
Mas então, que deuses ignoram a humanidade? Pensando-se assim, concluímos que somos tolos mesmo. Eles não ignoram nem a humanidade, nem a qualquer outro ser da criação. Eles apenas não são juízes que ficam dia e noite fazendo seus comentários e rindo do que acontece no mundo. Os Deuses têm muito trabalho, afinal eles são a chuva que cai na em todo lugar, o sol da manhã e da tarde, o curso do rio, o vulcão em explosão, a floresta rica em vida, o deserto frio e quente, a lua das mais variadas faces, entre outros. Agora sim: os Deuses não são deuses, são espíritos da natureza.
Porque se assustar com o termo espírito? Novamente peço: esqueça a visão tradicional de “superioridade”. Os druidas e os celtas acreditavam em espíritos-ancestrais da natureza. Logo, o rio era um “deus”, ou melhor, um espírito-ancestral. Espírito porque dá ânimo ao corpo – ao rio, no caso. Ancestral pelo fato que o rio nos dá o peixe como alimento, a água como bebida, a passagem para outras regiões, assim como concedeu um dia aos ancestrais que ali passaram, pescaram e beberam. Empregue esse pensamento a todas as formas da natureza: chuva, lua, sol, estrela, céu, solo, mata, etc.. Quando os nossos ancestrais diziam haver o “Deus dos Animais Selvagens”, não o separavam da fauna local. Ou seja, se um lince atacasse um humano, podia ser um sinal. Se uma onça comia uma cotia na mata, podia ser um presságio. Um animal, uma planta, uma pedra, o vento ou até nós mesmos, podemos ser a expressão de um espírito-ancestral.
Esses espíritos-ancestrais renascem (reencarnam). Não quer dizer que eles serão “messias”, renascem com propósitos diversos e para experimentar a vida aqui, assim como qualquer espírito. Outro aspecto relevante é que os espíritos-ancestrais não importunam ninguém, muito menos ficam chamando quem não quer andar no caminho. Eles somente nos visitam quando são bem vindos e aceitos. Quando deixamos, eles habitam nossos sonhos. Quando não os queremos, eles se afastam. Mas nem por isso, o rio deixará de lhe tirar a sede e nem a terra de lhe alimentar. A relação com os mesmos é sempre de espírito para espírito.
Quando sabemos que não somos servos ou escravos de um ser dito “superior”, podemos ser mais sinceros e cultivar amor, amizade, fraternidade, igualdade, humildade, entre outros valores como os Espíritos-Ancestrais que nos rodeiam. Começamos a não mais confundir habilidade ou capacidade com “poder”. Os Deuses (Espíritos Ancestrais) têm poderes, que não significa mandato ou governo sobre algo ou alguém, mas habilidade ou capacidade de fazer algo. Mas fazem o que, bem ou mal? Depende, mal ou bem não são capacidades que provém dos Espíritos Ancestrais, o homem é que tem a habilidade de separar tudo em dois pólos, a bondade e a maldade. Maldade e Bondade provêm dos Homens, os Deuses somente concretizam os pedidos. Além disso, os Deuses (Espíritos Ancestrais) concretizam muitos atos, porém eles não são fábricas de tudo que se pede. São eles que decidem se vão ou não fazer tal anseio. E é sempre bom trocar presentes e/ou oferendas. Recorde também que os Deuses (Espíritos Ancestrais) não são sobrenaturais, são tão naturais quanto nós.
Deuses e Homens são tão próximos quando o céu e a terra. Estão à espera de um contato sublime, de uma amizade sincera, de um amor inesquecível. Tem sentimentos parecidos, além de qualidade e defeitos. Podem até renascer! São Espíritos da natureza, ancestrais e protetores, vivem por toda parte, inclusive dentro de nós. Eles são mesmo Todos Poderosos, mas no que fazem e não no que “governam”. Fiquemos nossa raiz espiritual na natureza num todo. Que retornem o artesão hábil, a bela mulher, o grande feiticeiro, a curandeira, o guerreiro e a velha tecelã!
“A alma tem muitas capacidades, porém quando o poder é em demasia, a habilidade retrai, a arte decai, a sutileza é destronada, a humildade acaba e a honra é esquecida.”
Eu reverencio a capacidade de poder ter proximidade e ser amigo dos Espíritos-Ancestrais!
Awen

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